O choro que não cessa, a amamentação que não funciona, a culpa silenciosa da mãe que acredita estar errando. O que muitas famílias ainda não sabem é que por trás desses dramas cotidianos pode haver uma questão fisiológica com solução
A cena se repete diariamente em maternidades e consultórios de todo o Brasil. A mãe chega exausta. O bebê não pega bem o seio, o leite não desce como deveria, o choro é constante. Depois de semanas tentando, a sensação que prevalece é a de fracasso. A de que simplesmente não foi feita para amamentar.
O que a ciência já comprovou, no entanto, é que na maioria desses casos a dificuldade não está na mãe. Está no bebê, em um padrão motor oral que pode ser identificado, avaliado e ajustado com a intervenção correta, no momento certo.
No Brasil, quase 100% das mulheres iniciam a amamentação, mas dois terços param no meio do caminho. A OMS recomenda aleitamento materno exclusivo até os seis meses, e dados apontam que apenas metade das crianças recebe a amamentação ainda na primeira hora de vida. Por trás desses números, há histórias de mães que desistiram sem saber que havia uma solução, e profissionais como a fonoaudióloga Flávia Puccini, mestre pela USP e fundadora do Espaço Bebê e Criança, em Campinas, que dedicam a carreira a mudar esse quadro.
A fonoaudiologia infantil ainda é, para muitas famílias, uma descoberta tardia. A maioria associa o fonoaudiólogo à fala e imagina que esse profissional só entra em cena quando a criança já deveria estar falando e não fala. A atuação, porém, começa muito antes. Começa, em muitos casos, nos primeiros dias após o nascimento.
O aleitamento materno estimula e fortalece os músculos dos lábios, da boca e da língua, preparando esses órgãos para o aprendizado da fala e promovendo o equilíbrio da musculatura oral e a respiração nasal, além de prevenir infecções de ouvido que podem comprometer a audição. A forma como o bebê mama nos primeiros meses de vida tem, portanto, consequências diretas no desenvolvimento da fala anos depois. O que parece um problema de amamentação pode ser o primeiro sinal de algo que, sem intervenção, se manifestará mais tarde de outras formas.
Foi exatamente essa conexão que Flávia Puccini foi investigar em seu mestrado na USP. A pesquisa, batizada de “Bebê Virtual”, mapeou com precisão os movimentos da musculatura orofacial durante a amamentação e provou que o sucesso do aleitamento vai muito além da pega correta. O processo depende de um padrão motor oral complexo, que pode ser identificado e ajustado com intervenções precoces e precisas.
“Muitas vezes a mãe chega ao consultório sentindo-se culpada por não conseguir amamentar, quando, na verdade, existe uma questão fisiológica ou motora no bebê que precisa de um ajuste. O papel do fonoaudiólogo é, também, devolver a essa família a autonomia e a paz, mostrando que o cuidado técnico, quando feito com empatia, transforma sacrifício em vínculo”, afirma Flávia Puccini.
Entre as condições mais comuns tratadas pelo Espaço Bebê e Criança estão a anquiloglossia, popularmente conhecida como língua presa, as dificuldades na amamentação e na introdução alimentar e os atrasos no desenvolvimento da fala.
A anquiloglossia é um exemplo de como um problema aparentemente simples pode ter consequências em cadeia se não tratado. O frênulo lingual encurtado impede que a língua realize os movimentos necessários para uma sucção eficiente. O bebê não mama bem, não ganha peso adequadamente, e o desmame precoce acontece com todas as consequências que isso implica para o desenvolvimento infantil.
Evidências científicas demonstram que o desmame precoce é uma das causas mais significativas de morbimortalidade infantil, segundo UNICEF e OMS, e que o aumento das taxas de amamentação exclusiva pode salvar cerca de 6 milhões de crianças a cada ano no mundo. A identificação e o tratamento precoces mudam esse trajeto. É exatamente esse o campo de atuação da fonoaudiologia de bebês : intervir antes que os problemas se instalem, antes que a criança chegue à idade escolar com dificuldades de fala, antes que a família acumule meses de angústia sem compreender a origem das dificuldades.
“No Espaço Bebê e Criança, não são tratados sintomas. São cuidadas histórias, vidas. São intervenções que mudam a saúde do bebê e da criança, mas que também impactam na dinâmica das famílias”, afirma a fonoaudióloga.
Referência em Campinas e reconhecida por famílias de todo o país, incluindo celebridades como Viih Tube e Eliezer, Flávia Puccini está prestes a dar um novo passo. O Espaço Bebê e Criança inaugura uma clínica maior, mais equipada e projetada para se consolidar como o maior centro de referência da infância do interior de São Paulo.
A nova unidade foi concebida para romper com o modelo tradicional de consultório. O ambiente é lúdico e acolhedor, e a proposta é que o próprio espaço físico faça parte do processo terapêutico. A clínica amplia também a abordagem integrativa que sempre esteve no centro da metodologia de Flávia Puccini: fonoaudiólogos,fisioteraupeta,terapia ocupacional, psicologia infantil e outros especialistas trabalhando em conjunto voltado em torno de cada bebê e de cada família, compartilhando informações e alinhando condutas.
“A fonoaudiologia integrativa parte de uma premissa simples: o bebê não existe sozinho. Existe dentro de uma família, de uma dinâmica, de uma história. Quando se trata o bebê, está sendo tratado esse ecossistema inteiro”, explica Flávia Puccini.
Para além das paredes da clínica, Flávia Puccini lançou o e-book “Primeiras Palavrinhas”, guia prático que capacita mães e pais a identificar os marcos do desenvolvimento da fala e reconhecer sinais de alerta que merecem atenção especializada. A iniciativa responde a uma lacuna real: estudos apontam que a maioria das mães desconhece a fonoaudiologia como área atuante na saúde materno-infantil, o que significa que muitas famílias chegam tarde, quando os problemas já estão instalados e o tratamento é mais longo e complexo.
Quanto mais cedo a família reconhece um sinal, mais rápida e eficaz é a intervenção. E quanto mais eficaz a intervenção, menor o impacto no desenvolvimento da criança e na vida de todos ao redor dela.
Por trás de cada atendimento no Espaço Bebê e Criança há uma dimensão que não aparece em prontuários: o alívio da família que finalmente entendeu o que estava acontecendo com o seu bebê e encontrou um caminho.
“Quando uma família entende o que está acontecendo com o seu bebê, algo muda. A culpa some. A ansiedade diminui. E o vínculo pode se fortalecer de verdade, porque ele não está mais sendo construído sobre o medo de estar errando”, reflete Flávia Puccini.
Essa é a missão central do Espaço Bebê e Criança: chegar antes que o problema vire crise, ouvir o que ainda não foi dito em palavras e cuidar do bebê cuidando, também, de quem o ama.









